Urutau Chorou e a Mata se Levantou
Houve um tempo em que o sertão catarinense
não conhecia descanso.
Pelas bandas do Planalto Norte
e do Meio-Oeste esquecido,
a vida era feita de geada, pinheiro, fumaça,
reza baixa e coragem sem retrato.
Ali viveram homens e mulheres de firmeza escondida.
Gente que pedia por um pedaço de chão,
um rancho contra o frio,
um fogo para aquecer os filhos
e o direito simples
de permanecer onde seus mortos dormiam.
Eram caboclos de mão grossa,
sertanejos de palavra curta,
peleadores por necessidade,
crentes por abandono,
valentes porque a vida
nunca lhes deu o luxo de serem frágeis.
Traziam no peito uma fé antiga,
meio monge, meio mata,
meio cruz, meio facão,
meio silêncio, meio trovão.
O tempo passou sobre eles
como passam as neblinas sobre os campos:
apagando rastros, cobrindo nomes,
esfriando fogueiras,
derrubando ranchos,
transformando em quase lenda
o que um dia foi sangue, fome, luta
e desamparo.
Mas há histórias que não morrem.
Ficam deitadas por dentro da terra,
como raízes de imbuia,
como brasas sob cinza velha,
esperando o instante rude
em que algum descendente,
sem saber de onde lhe vem a força,
precisa levantar-se outra vez
diante da sombra.
Foi assim que, numa hora amarga,
quando a vida pareceu cercada
no próprio chão,
quando o medo entrou sem licença
e a morte rondou perto demais,
alguma coisa antiga despertou.
Foi um instinto sagrado
de quem precisava permanecer.
Permanecer pela família, pela casa, pela história,
pela obrigação silenciosa de não deixar que a última página
fosse escrita pelas mãos da violência.
Naquele instante,
não havia bandeira,
nem apoio.
Havia somente a terra,
o silencio da honra,
o sopro curto da vida,
e um sangue velho correndo por dentro,
como se todos os caboclos esquecidos
do Contestado
se erguessem novamente
no fundo da alma. Um canto de Urutau.
Vieram, talvez, os monges,
com suas rezas perdidas nas grutas.
Vieram os nativos da mata,
os irmãos que tombaram sem monumento,
os jagunços de destino torto,
os homens tauras
e as mulheres valentes
que um dia enfrentaram o mundo
sem que o mundo tivesse piedade deles.
Vieram sem alarde.
Sem clarim.
Sem retrato.
Vieram como vêm os ancestrais:
não pelo portão,
mas pelo sangue.
Não pela voz, pois o valente não geme,
mas pelo pulso.
Não para matar,
mas para impedir
que a vida fosse vencida
antes da hora.
E então se compreendeu,
mesmo sem compreender,
que há momentos em que o passado
não é lembrança.
É uma espécie de mística do breu.
É mão pesada antiga e invisível no ombro.
É força que sobe da terra.
É o grito antigo de uma raça
que já conheceu cerco, perda, injustiça,
e ainda assim não se entregou.
Depois, quando tudo passou,
ficou o silêncio.
Um silêncio pesado,
desses que sentam à mesa
e olham nos olhos da gente.
Ficou a pergunta que ninguém responde.
Ficou o calafrio escondido.
Ficou a certeza triste
de que a história quase terminou
onde ainda havia tanto
para ser contado.
Mas também ficou outra coisa.
Ficou a missão.
A de falar pelos que não tiveram voz.
A de lembrar os que foram cobertos
pela poeira dos arquivos.
A de guardar, ainda que poucos guardem,
essa legenda de gente simples,
brava e sofrida,
que fez da própria dor
uma forma de existência.
Porque os costões do Contestado não jaz apenas
nos livros, nos mapas, nas cruzes antigas.
Ele ainda pulsa
em alguns corações teimosos.
Pulsa no homem que olha para a mata
e sente que ela guarda nomes na sepultura ancestral que os abraça
Pulsa na família que acende o fogo
e não sabe que repete um rito antigo.
Pulsa no sertanejo que cai por dentro,
mas se levanta por fora,
porque traz no sangue
uma memória maior que o medo.
Aquele tempo passou.
Passou como passam os tropeiros
na curva comprida da estrada.
Mas deixou sinais, através dos cantos da bruxa agorenta no farpado.
Deixou marcas na terra,
na fala,
na coragem,
na tristeza funda
de quem sabe que viver
também pode ser uma peleia.
E se ainda há alguém, com a leveza do voo de uma borboleta azul,
para contar essas histórias,
é porque a vida, certa vez,
recusou-se a terminar
no modo bruto dos homens.
É porque, no instante mais escuro,
os antigos caminharam de novo.
E, lado a lado com quem precisava ficar,
ajudaram a manter acesa
a pequena chama
que o tempo não conseguiu apagar.
Assim, entre pinheiros, neblinas
e lembranças que doem,
segue vivo o rancho invisível do caboclo.
Não como saudade vazia,
mas como lagrimas daqueles que teimam em não chorar.
Não como guerra que se deseja repetir,
mas como memória que ensina
que alguns povos, mesmo esquecidos,
continuam defendendo os seus
por dentro daqueles
que ainda carregam sua alma.
Outono de 2026.
Por C. J. Vellasques

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